terça-feira, 7 de abril de 2015

A TRISTEZA PERMITIDA... texto de Martha Medeiros

"Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.


Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas..." Martha Medeiros


Achei esse texto na pagina de uma colega no facebook, quando comecei a ler já pensei: mas porque ela esta triste? depois de terminar a leitura compreendi que ela compartilhou porque concorda com a Martha Medeiros (se é mesmo dela o texto, já que na internet nunca se sabe se o autor é mesmo o autor). 
Eu obviamente estou replicando em meu blog, porque esse texto reflete exatamente o que penso quando alguém cobra-me que não posso num belo dia de outono acordar triste sem vontade de sair da cama.
Vivemos a ditadura do politicamente correto, ou seja não é correto você ficar triste, temos que estar sempre felizes porque a vida é boa e temos tudo que outros não tem, quantas vezes eu mesmo repliquei este discurso! Mas a maturidade chega com o tempo, e hoje percebo mais do que nunca que a tristeza faz parte da vida tanto quanto a felicidade, e não devemos esconder ela debaixo do tapete só porque não é agradável aos olhos da sociedade.
Já percebeu que todas as fotos que compartilhamos é de momentos felizes, e isso é automático, será que não deveríamos registrar também os momentos tristes? 
Isso seria bom até para lembramos que a felicidade não é constante, mas obvio que se você fazer isso logo vai aparecer alguém dizendo que esta com depressão!
Desafiando as convenções assumo aqui que as vezes acordo triste sem razão algum, apenas com a vontade de lamentar as minhas dores, perdas, anseios e medo. Mesmo que neste momento não esteja me sentindo triste, quero registrar neste pequeno espaço virtual que compartilho com o mundo, que tenho o direto (todos(as) tem) de ficar triste sem ter que dar razão pra isso, afinal como diz a Martha "as razões têm essa mania de serem discretas".



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